terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Recomendações visuais

Aqui está um óptimo site para encontrar imagens diferentes, normalmente algo "estranhas" se assim lhe quiser chamar, daí o seu interesse.

http://www.obsessionart.com/find.asp?manufacturer_id=Gernot

Poema do dia

Adélia Prado

MEDITAÇÃO DO REI NO MEIO DE SUA TROPA

Só à conta de biógrafos pertencem
os grandes feitos de homens memoráveis.
Biografias são desejs,
ainda as dos malfeitores e as dos santos.
A vida, a pura,
a crua e nua vida
é cascalho,
teatrinho de sombras
que a mão de uma criança faz mover.
Como aves migrando a estações mais quentes
a comando invisível prosseguimos
e perfilados somos até felizes.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Conhecendo outros poetas

Hoje apetece-me continuar a mostrar o que de melhor se faz em termos de poesia por esse mundo fora. E quero dar a conhecer outra escritora que me parece interessante: Sharon Olds. Também me interessa mostrar poetas que possam eventualmente ser desconhecidos, ou pelo menos mais "exóticos", no sentido em que pouco se fala deles.

Sharon Olds

THAT YEAR (em Satan Says)

The year of the mask of blood, my father
hammering on the glass door to get in

was the year they found her body in the hills,
in a shallow grave, naked, white as
mushroom, partially decomposed,
raped, murdered, the girl from the class.

That was the year my mother took us
and hid us so we would not be there
when she told him to leave; so there wasn't another
tying by the wrist to the chair,
or denial of food, not another
forcing of food, the head held back,
down the throat at the restaurant,
the shame of vomited buttermilk
down the sweater with its shame of new breasts.

That was the year
I started to bleed,
crossing over that border in the night,

and in Social Studies, we came at last
to Auschwitz, in my ignorance
I felt as if I recognized it
like my father's face, the face of a guard
turning away - or worse yet
turning toward me.

The symmetrical piles of white bodies,
the round, white breast-shapes of the heaps,
the smell of the smoke, the dogs the wires the
rope the hunger. This had happened to people,
just a few years ago,
in Germany, the guards were Protestants
like my father and me, but in my dreams,
every night, I was one of those
about to be killed. It had happened to six million
Jews, to Jesus's family
I was not in - and not everyone
had died, and there was a word for them
I wanted, in my ignorance,
to share part of, the word survivor.

Foto do dia (o poema é meu)



bit

every moment of my past flashing rapidly through my eyes.
what you see when you’re falling.
all those feelings rushing inside.

my memory in bits and pieces.
everything i broke. everything i wanted.

bring me the clouds
that they might clear
my head
with their peaceful guns.

sábado, 2 de janeiro de 2010

O poeta português que todos esqueceram, outros nem sequer conheceram, mas que eu aqui recordo

A bem da verdade, Tomaz de Figueiredo fez-me escrever. Quando me ofereceram a sua obra poética, imagino que há uns 3 anos ou mais, percebi que a literatura portuguesa tinha mais para oferecer que as papas que nos eram impingidas nas aulas de Português. E fiquei entusiasmada. Não que não tivesse lido outros poetas portugueses de interesse, mas este foi de facto especial. Deixo-vos com um dos meus poemas preferidos de Tomaz de Figueiredo, o escritor português que toda a gente esqueceu.


ANATHEMA SIT

Odeio-te, Poesia, bruxa fria
que me deitaste o olhar, mal que nasci
e que me perseguiste, noite e dia,
ó bruxa fria para quem vivi.

Olha-me bem, fita-me bem, aqui
a retorcer-me em pasmos de agonia.
Maldita a hora em que me dei a ti,
ó bruxa fria! Odeio-te, Poesia!

Maldigo-te, ó engano dos enganos.
que matando me vais, nocturna, aos poucos!
Maldita sejas, bruxa enganadora!

Vai-te, Poesia, engano dos humanos,
Fazedora de Cristos e de loucos!
Fora de mim, ó Poesia! Fora!


Poema do dia

Luíza Neto Jorge

Venho de dentro, abriu-se a porta...

Venho de dentro, abriu-se a porta:
nem todas as horas do dia e da noite
me darão para olhar de nascente
a poente e pelo meio as ilhas.

Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo
de só imaginá-la a luz fulmina-me,
na outra face ainda é sombra

Banhos de sol
nas primeiras areias da manhã
Mansidões na pele e do labirinto só
a convulsa circunvolução do corpo.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Meu primeiro poema do ano

diz


diz que
um beijo não é necessário
também sabes mentir quando é preciso
só te protejo do escuro

diz que
o amor é uma promessa
não deixes que se esmoreça numa certeza – ou fraqueza –

se não recuperar do fracasso
que é olhar para o teu rosto
o resto de ti é um protesto/pretexto
para pecar

mas o teu corpo está blindado
afundado
no céu

diz que
não te arrependes
de me ter transcrito
quando me estava a recompor
de te ter absorvido por completo

diz que
um segundo a amaldiçoar-me
é o suficiente para me invadir
é o suficiente para me transgredir

é verdade que ninguém percebe
o esforço que é preciso
para te desaprender
considerando que os teus olhos são de encaixo
nos meus

diz que
é constrangedor sentirmo-nos culpados – asfixiados –
por querer sorrir com o coração a debater-se
sobre qual será a melhor forma de acordar amanhã
porquê se um beijo é só uma abreviação para rendição


se não te conseguir abraçar
na humilhação de ter que te abandonar
podes ter que me abrir
quando estiver a cair para cima da tua boca