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segunda-feira, 20 de junho de 2011

Pessoa Diário: Cansa sentir quando se pensa


Fernando Pessoa

Cansa sentir quando se pensa

Cansa sentir quando se pensa.
No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa
Que tem por corpo o frio do ar.

Neste momento insone e triste
Em que não sei quem hei de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer.

Tudo isto me parece tudo.
E é uma noite a ter um fim
Um negro astral silêncio surdo
E não poder viver assim.

(Tudo isto me parece tudo.
Mas noite, frio, negror sem fim,
Mundo mudo, silêncio mudo -
Ah, nada é isto, nada é assim!)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Pessoa Diário: A morte chega cedo

Fernando Pessoa

A morte chega cedo

A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.

O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte
Risco por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.

Fonte: Cancioneiro

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Citação do dia: Pessoa Diário

















«Tudo quanto o homem expõe ou exprime é uma nota à margem de um texto apagado de todo. Mais ou menos, pelo sentido da nota, tiramos o sentido que havia de ser o do texto; mas fica sempre uma dúvida, e os sentidos possíveis são muitos.»

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Poema do dia: Os Adeuses

Tomaz de Figueiredo
OS ADEUSES
Casa à beira do Vez - quem tem, sem ter -
onde passava noites à lareira,
jogando a bisca ou Vieira a ler,
chorando, às vezes... com a fumaceira...
 
Casa onde via bagos lourescer
e escrevia aos olores da laranjeira,
onde cuidou em paz vir a morrer
ao embalo da fonte cantadeira...
 
Casa do Amor, do Sonho e da Lembrança,
do Sempre e das Meninas Tias Velhas,
de falsos com fantasmas, cacaréus...
 
Casa das tropelias de criança
e que não mais há-de abrigá-lo às telhas,
Casa de Avós, perdida casa: - Adeus!

domingo, 12 de setembro de 2010

Poem of the day: Finding the Words

Carol Ann Duffy

Finding the Words

I found the words at the back of a drawer,
wrapped in black cloth, like three rings
slipped from a dead woman's hand, cold,
dull gold. I had held them before,

years ago,
then put them away, forgetting whatever it was
I could use them to say. I touched the first to my lips,
the second, the third, like a sacrament,
like a pledge, like a kiss,

and my breath
warmed them, the words I needed to utter this, small words,
and few. I rubbed at them till they gleamed in my palm -
I love you, I love you, I love you -
as though they were new.