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sábado, 15 de janeiro de 2011

Os Meus Poemas: encarar o livro de frente


encarar o livro de frente

podia até chorar

por um livro

que estivesse em cima da mesa

a servir de amparo

para as horas em que encaro a vida de frente

estou a ter dificuldades

em acalmar sentimentos

em conseguir viver os pensamentos

que estão a dar passos na minha memória viva

mas de que vale chorar

se as vozes estridentes

vieram para ficar

e as palavras que estão dentro dos livros

correm umas atrás das outras

na minha direcção

para me matar

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Os meus poemas: A passagem de Deus

A passagem de Deus

Um dia vou fazer-me passar por um Deus anónimo
e tocar nas mãos virgens dos dissidentes
e mentir-lhes ao ouvido,
sussurrando imagens de sangue e de anarquia

Nas minhas parcas vestes
enterrarei um punhal de arrependimento
em vez de um mandato de paz
e bastará uma palavra
de incentivo à violência
para que se dê a guerra santa

De pés descalços a arder no fogo da terra
espalharei impunidades e crenças invisíveis
e deixarei que outros ardam na fogueira
tão-somente por suspeição

Não revelarei o meu preconceito de género
nem o meu conceito de igualdade
para não ferir susceptibilidades
mas rezarei por todos como se fossem iguais
sofrerão todos a mesma dor
sonharão todos com o mesmo apocalipse

Darei uma dentada na maçã da vida
e tentarei padecer do mesmo mal que os cristãos
não ordenarei divisões, apenas segregações
comandadas pelo poder

Far-se-á justiça com as próprias mãos
com a minha permissão
e o futuro será risonho
para os pecadores
e severo para os combatentes

Deixo para trás um livro
cheio de palavras verdadeiras
que serão o espelho de uma sociedade
à minha imagem e semelhança

E no final dos tempos
vão todos passar ao largo da minha memória
e tudo isto parecerá
um mero acto de auto-flagelação.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Os meus poemas: diminuir a luz

diminuir a luz

esta é apenas mais uma preocupação nocturna
como todas as outras
que nos acompanham
quando estamos a adoecer

quando esta voz
se instala
no peito adormecido
e faz diminuir a intensidade
das palpitações
do coração que está de fora

ela é mais do que uma palavra espelhada noutra
é mais medrosa do que isso

e a certeza que transparece
a certeza de estar a ser transformada
por uma espécie de portão
que se abre à minha frente
e assinala uma passagem dolorosa
faz-me temer o confronto
num espaço periclitante
entre os passos que dou
e os sons dos passos dos outros

receio a minha identidade
tanto como a minha clarividência febril
e na debilidade própria da lucidez
falta-me a fragilidade
para ser funâmbula

sábado, 26 de junho de 2010

My poems: reconheces-me

reconheces-me

quando me perguntas ‘reconheces-me’ ao ouvido
durante o que parece ser uma dança
palavras e silêncios me contas
com a pontas dos dedos

sinto o que dizes
mas não entendo as pausas
a insubordinação do teu corpo

não entendo
as perguntas que me fazes
contra uma luz a vazar os sentidos
que ainda me restam

podes tirar-me esta protecção
o intervalo entre nós
para me enfraquecer

mesmo assim
não entenderei
porque estremeces
com o som que dispara no coração

e quando me perguntas ‘reconheces-me’ outra vez
respondo-te com segredos
comunicamos assim
como se fôssemos estranhos
estranhos
que não sabem o que fazem
que não sabem do que têm mais medo:
de se perderem ou de se acharem

sábado, 22 de maio de 2010

Novo Poema: espiral de estrelas

espiral de estrelas

tudo é simples.

as palavras são só palavras.
as mentiras são só mentiras.

os esconderijos são só esconderijos
onde nos resguardamos da correnteza
onde silenciamos as vozes.

os sonhos são só sonhos.
os buracos negros são só buracos negros.

a espiral de estrelas
quando estamos a ir ao fundo
do avesso

esta pele simples
pressente
que seremos mais fortes
mais cegos e mais surdos

a cegueira é só cegueira.
a surdez é só surdez.

estas sombras
que tens
dentro das mãos
onde pousas a cabeça
trair-te-ão sempre com simplicidade

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Novo poema: m.e.d.o

m.e.d.o (parte I)

começo a sentir
as mãos a acariciarem
sensualmente
o meu pescoço

começa o medo
a envolver-me
por entre
os teus
raios de luz

qual alma que esvoaça
do corpo
e se lança
no turbilhão
da vida

começa
a transformação
a recolha interior
o gritar na parte de dentro

aquilo
que desejaria roubar
o sentimento mais primitivo

começa no corpo
a mudar de posição

começa com o medo
a estender-me a mão

domingo, 28 de março de 2010

Saber de cor a diferença

saber de cor a diferença

apelo pelas primeiras sensações
as sensações que julgamos duradouras

elas são afinal o manto que cobre o medo
o medo de medir momentos movediços

mal posso esperar pelo ar fresco
aquela libertação interna irregular
que sentimos quando deixamos de lutar

não vale a pena tentar segurar
o suspiro sonhador sem saborear antes
as labaredas de um fogo que arde antes de se acender

sei ser fiel ao património deixado
por quem já morreu uma morte lenta e latejante
não acredito que haja mortes triunfantes

mesmo a vida que é pensada de antemão
não pode simplesmente ser perdoada pelo perdão
perder a identidade é tão-somente deixar de existir
entre as certezas recalcadas da memória
para existir entre incertezas inimputáveis
próprias de uma lógica ininteligível

a diferença dos dias distantes que nascem colados
muitas vezes nos diz o que ainda não foi falado
muitas vezes nos atira novamente para o tempo perdido
onde queremos saber de cor a diferença

o que nos distingue dos outros
é quase sempre igual
ao desejo de querer estar momentaneamente fora do nosso corpo
e aceitar
que o desconhecido
é ver o nosso reflexo reflectido
no reflexo de outra pessoa