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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Os Meus Poemas: coisas concretas

coisas concretas


as coisas muito concretas

que parecem alucinações

quando olhamos para elas e nos afastamos


daquilo que é poesia


e daquilo que são corpos pregados num céu sem estrelas

feito a partir de retalhos e remendos dos contos que me contas

com os olhos fechados

para o mundo


e se agora me atingisse um relâmpago

quando estou a acordar

e a ser engolida pela noite

uma coisa concreta

mas impalpável


tudo se transformaria

numa coisa desfeita

e dolorosa


aquilo que escondemos

por entre sorrisos abertos

e momentos transitórios

colocar-nos-á um pouco mais longe

do que vemos reflectido


e a sensação com que ficamos

é que as coisas concretas

não nos deixam ser aquilo que queremos

sábado, 15 de janeiro de 2011

Os Meus Poemas: encarar o livro de frente


encarar o livro de frente

podia até chorar

por um livro

que estivesse em cima da mesa

a servir de amparo

para as horas em que encaro a vida de frente

estou a ter dificuldades

em acalmar sentimentos

em conseguir viver os pensamentos

que estão a dar passos na minha memória viva

mas de que vale chorar

se as vozes estridentes

vieram para ficar

e as palavras que estão dentro dos livros

correm umas atrás das outras

na minha direcção

para me matar

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A Homage to Skins (poema meu)

pousa os teus lábios nos meus
até esquecermos de onde viemos

descansa o teu coração no meu
até o pensamento nos libertar
da tensão que não repousa
do amor que nunca pára de escorrer
tal é a sabedoria que transporta
nesta hora de cumplicidade

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Os Meus Poemas: 29/11/10

29/11/10

só espero que o que te leve
seja o vento
e não a tempestade
que assola o meu coração
que já não sente
a passagem do dia para a noite

já que todos os ruídos se calaram
com a solenidade do momento
e as sobrancelhas se fecharam
à luz que a perspectiva de um novo dia que poderá existir
sintamos então esta mágoa de português
e preparemo-nos para o velório
agora que novamente se torna claro
a inaptidão de quem está de partida

sentir que fazes falta
e ouvir mil explosões no ar
continuadamente
a adoecer

e nada faz o tempo parar
o tiquetaque das pessoas que agora se preparam
para se despedir
e reparam
que de nada vale um sorriso fechado
um abraço sentido
uma palavra ao ouvido

de nada vale querer sentir
o que não pode ser sentido

domingo, 17 de outubro de 2010

Meus poemas: úteros invisíveis

úteros invisíveis

vamos abraçar-nos
aqui
entre o frio
e as dúvidas que carregamos

as pétalas que dividimos
constrangidos um pelo outro
vão acabar desfeitas
em promessas
de pessoas que não podemos ser
pessoas que nunca vamos ser

abracemo-nos, porém,
enquanto o sentimento de culpa
não nos traz chagas
que não queremos invocar

vamos esperar mais um dia
pode ser que venha a claridade
e nos faça deixar de temer
o que abandonámos há muito tempo
as pequenas mortes diárias
o delírio constante
que nos faz achar que estamos unidos
por um qualquer sentimento
que nos devolve a sensação
de estarmos no útero
a ser protegidos
por uma invisibilidade
controlada pelos bocejos do silêncio

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Os meus poemas: diminuir a luz

diminuir a luz

esta é apenas mais uma preocupação nocturna
como todas as outras
que nos acompanham
quando estamos a adoecer

quando esta voz
se instala
no peito adormecido
e faz diminuir a intensidade
das palpitações
do coração que está de fora

ela é mais do que uma palavra espelhada noutra
é mais medrosa do que isso

e a certeza que transparece
a certeza de estar a ser transformada
por uma espécie de portão
que se abre à minha frente
e assinala uma passagem dolorosa
faz-me temer o confronto
num espaço periclitante
entre os passos que dou
e os sons dos passos dos outros

receio a minha identidade
tanto como a minha clarividência febril
e na debilidade própria da lucidez
falta-me a fragilidade
para ser funâmbula

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Os meus poemas: my old poems - auguries of innocence


Some are Born to sweet delight,

Some are Born to Endless Night.
We are led to Believe a Lie
When we see not Thro the Eye
Which was Born in a Night to perish in a Night,
When the Soul slept in Beams of Light.
God appears, and God is light
To those poor Souls who Dwell in Night,
But does a Human Form Display
To those who Dwell in Realms of Day.

Auguries of Innocence, William Blake (1803)

auguries of innocence

o que acontece quando vemos o mundo?
o que acontece quando percebemos que o mundo é um cavalo
de flores com o inferno à volta da cintura?
o que acontece quando deixamos de o sentir
na palma da nossa mão?
quando o mundo e as suas formas nascem de novo em todas as noites.


o que diz o mundo que seja verdade?
o que o mundo me sussurra ao ouvido, com a mão sobre o meu ombro,
é tudo inventado.

o que acontece quando sentimos o mundo?
o que acontece quando deixamos sair dos olhos a inocência?

o que acontece quando sabemos que o mundo é uma estrada de areia?
o que acontece quando deixamos que o mundo nos minta?
o que é que nos diz o mundo que possamos ver?

o que acontece no mundo quando o mundo que achamos ser mundo
é a raiva e o espírito do sangue humano.
quando fomos um mundo que existiu
exclusivamente dentro de nós.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Meus Poemas: fóssil

fóssil

a angústia
do fim do dia
faz-me perceber
o quanto tudo é frágil
e insignificante.

o que agora sinto
será transformado
em algo pior
quando acordar
noutro tempo
anterior ao Cretáceo
onde nada se sentia
onde tudo era pó sangrento
de sobrevivência primitiva

quem me dera poder voltar
a ser um fóssil
do que sou
do que me tornei
depois de ter conseguido sentir

serei imortal, sim,
pelos vestígios que deixo
os meus ossos

mas nunca serei imortal
por ter uma voz
que ninguém cala
com ameaças de morte

posso até estar aprisionada
mas isso nada significará
para quem me conseguir ver
a 95 milhões de anos de distância

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

formas inesperadas


formas inesperadas

a felicidade
assume várias formas inesperadas

a minha
assume apenas uma

a de um poema completo
terminado

um poema
que me diga
o que eu não consigo dizer

sábado, 26 de junho de 2010

My poems: reconheces-me

reconheces-me

quando me perguntas ‘reconheces-me’ ao ouvido
durante o que parece ser uma dança
palavras e silêncios me contas
com a pontas dos dedos

sinto o que dizes
mas não entendo as pausas
a insubordinação do teu corpo

não entendo
as perguntas que me fazes
contra uma luz a vazar os sentidos
que ainda me restam

podes tirar-me esta protecção
o intervalo entre nós
para me enfraquecer

mesmo assim
não entenderei
porque estremeces
com o som que dispara no coração

e quando me perguntas ‘reconheces-me’ outra vez
respondo-te com segredos
comunicamos assim
como se fôssemos estranhos
estranhos
que não sabem o que fazem
que não sabem do que têm mais medo:
de se perderem ou de se acharem

sábado, 12 de junho de 2010

Meus poemas: de profundis

de profundis

Society, as we constitued it, will have no place for me.
Oscar Wilde, De Profundis


quanto tempo vais perder
a tentar perceber a profundidade do corte

a profundidade do corte

vais ambicionar outros tempos
vais ser outro escudo penitente

como um dos fracos
entregues a uma solidão
tão monótona
quanto exagerada
escolheste os passos

e dessa travessia
sobrarás
como o único sobrevivente

no caminho
vais ser
o que te dizem para ser

vais fazer de tudo
para sentir

sábado, 15 de maio de 2010

Novo poema: m.e.d.o – parte II: entre nós

Mais um poema para esta trilogia de poemas que criei. Ainda não sei se no fim será uma trilogia ou mais conjuntos de poemas sob o mesmo molde. Tenho de ver onde este projecto me leva. Mas aqui fica a segunda parte. Nem sequer sei se os vou usar no futuro, mas estou a testá-los.

m.e.d.o – parte II: entre nós

poucas são as vezes
em que arranjamos tempo
para ter consciência
do que somos

para ter consciência
do que é sentir os outros
sem outras pretensões
sem outras protecções

porque o medo
de encontrar um reflexo no outro
é mais aterrador
do que a dor
que sentimos
quando a nossa verdade
desperta

a minha verdade
é a tua verdade
está no teu sorriso
quando não vês
as barreiras
que nos separam

e nada mais há a fazer
para além de estender a mão
a esta nova voz
de uma nova cumplicidade
que rasga o medo
de ser feliz

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Novo poema: m.e.d.o

m.e.d.o (parte I)

começo a sentir
as mãos a acariciarem
sensualmente
o meu pescoço

começa o medo
a envolver-me
por entre
os teus
raios de luz

qual alma que esvoaça
do corpo
e se lança
no turbilhão
da vida

começa
a transformação
a recolha interior
o gritar na parte de dentro

aquilo
que desejaria roubar
o sentimento mais primitivo

começa no corpo
a mudar de posição

começa com o medo
a estender-me a mão