domingo, 17 de outubro de 2010

Poema do dia: Euforia

Al Berto

Euforia

cai neve no cérebro vivo do imaculado - dizem
que este milagres só são possíveis com rosas e
enganos - precisamente no segundo em que a insónia
transmuda os metais diurnos em estrume do coração

dizem também
que um duende dança na erecção do enforcado - o fulgor
dos sémenes venenosos alastra no brilho dos olhos e
um sussurro de tinta preta aflora os lábios
fere a mão de gelo que se aproxima da boca

o vómito da luz ergue-se
das palavras ditas em surdina

a seguir vem o sono
e o miraculado entra no voo dos cisnes
o dia cansa-se
na brutalidade com que a voz se atira contra as paredes
abrindo fendas
em toda a extensão das veias e dos tendões

quando desperta com o crepúsculo
o miraculado olha-nos fixamente e sorri
dá-nos uma rosa em forma de estilete - fechamos os olhos
sabendo que este é o maior engano
da eternidade

sábado, 16 de outubro de 2010

Poem of the day: The Coming of Light

Mark Strand

The Coming of Light

Even this late it happens:
the coming of love, the coming of light.
You wake and the candles are lit as if by themselves,
stars gather, dreams pour into your pillows,
sending up warm bouquets of air.
Even this late the bones of the body shine
and tomorrow's dust flares into breath.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Os meus poemas: diminuir a luz

diminuir a luz

esta é apenas mais uma preocupação nocturna
como todas as outras
que nos acompanham
quando estamos a adoecer

quando esta voz
se instala
no peito adormecido
e faz diminuir a intensidade
das palpitações
do coração que está de fora

ela é mais do que uma palavra espelhada noutra
é mais medrosa do que isso

e a certeza que transparece
a certeza de estar a ser transformada
por uma espécie de portão
que se abre à minha frente
e assinala uma passagem dolorosa
faz-me temer o confronto
num espaço periclitante
entre os passos que dou
e os sons dos passos dos outros

receio a minha identidade
tanto como a minha clarividência febril
e na debilidade própria da lucidez
falta-me a fragilidade
para ser funâmbula

Poem of the day: The Novelist’s Comments

John Mateer

The Novelist’s Comments

After I read my poem addressed to one of his people’s heroes,
in his reclaimed, autochthonous voice
the novelist doesn’t say:

This is our language, our land.

Nor does he say:

Why don’t you go back where you came from?

And in what he doesn’t say he is echoing the woman
who after burying her father – a rare fluent speaker of language –
declared she should have chucked his tapes and journals,
his repository of the tongue, after him into the mouth
of the grave:

So that the white bastards wouldn’t get that too.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Poem of the day; White Nights

Paul Auster

White Nights

No one here,
and the body
says: whatever is said
is not to be said. But no one
is a body as well,
and what the body says
is heard by no one
but you.

Snowfall
and night. The repetition
of a murder
among the trees. The pen
moves
across the earth: it no longer knows
what will happen, and the hand that
holds it
has disappeared.

Nevertheless, it writes.
It writes:
in the beginning,
among the trees, a body came walking
from the night. It
writes:
the body's whiteness
is the color of earth. It is earth,
and
the earth writes: everything
is the color of silence.

I am no
longer here. I have never said
what you say
I have said. And yet, the body
is a place
where nothing dies. And each night,
from the silence of the
trees, you know
that my voice
comes walking toward you.

sábado, 9 de outubro de 2010

Literatura Portuguesa Contemporânea: Recomendações

Recomendo, para já, dois livros, que eu própria vou ler muito brevemente, uma vez que ainda tenho que esperar que cheguem a casa e que depois tenha tempo para os ler. Mas as premissas dos livros em si já fazem deles recomendações e pequenos oásis no deserto da literatura portuguesa, que embora sempre rica, nem sempre nos presenteia com o seu melhor. É preciso procurar bem, e para quem não conhece, ou nunca ouvi falar destes autores, porque não lê-los? Especialmente se gostarem de literatura anglo-saxónica, como eu que a amo profundamente. Estes dois autores estão ligados não só por laços emocionais, como também por laços literários e temáticos se quiserem, embora se expressem em formas literárias diferentes, mas sempre complementares, do meu ponto de vista. A poesia e o romance. Boas leituras, eu por mim sei que os vou ler, mais cedo ou mais tarde. São ambos publicados pela Relógio D'Água que, por sinal, é uma editora de muito bom gosto. Tenho tantos livros da Relógio D'Água que isso deve querer dizer qualquer coisa.


a) Hélia Correia - Adoecer




















b) Jaime Rocha - Necrophilia


Soundtrack recommendations

This is mainly a list of albums that should be listened to on a rainy day like today, totally fitting for their mood and atmosphere. You can always go against the grain and listen to it on a sunny day, as long as it's in silence. It's bound to make you feel something. No matter what it is. Soundtrack recommendations:

a) Ghost Brigade - Isolation Songs

















b) Stone Circle - Myth
















c) James LaBrie - Static Impulse